L’amour

O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá. (…)
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor. (1Coríntios 13:4–8, 13, ARC)
Sei que essa descrição de Paulo se encaixa em todo tipo de amor: seja por Deus, pela família e etc. Mas quero focar em eros, o amor romântico.
Gosto bastante dessa passagem. Seria mentira falar que foi um esforço me lembrar dela, pois independentemente de religião, quase todo mundo a conhece. Eu mesmo de ler este capítulo como constante lembrete de que mesmo que eu queira abraçar o mundo, sem amor nada me valeria. Mas com essa coisa de Dia dos Namorados – entenda que eu não estou criticando a data, não gosto de jogar areia na felicidade alheia – me peguei refletindo sobre o tema.
Quando foco nas características do amor e levo para o romance, percebo que me deparo com tudo o que eu nunca senti. O que não significa exatamente que eu nunca tenha sentido afeição, atração, gostado ou me apaixonado por ninguém. Significa que eu nunca amei ninguém. E isso me leva para o primeiro ponto de reflexão: como eu poderia ter amado alguém, e hoje não amar mais? Seria possível eu dizer “Ah, eu te amei muito, mas agora…”? Não! Ou pior, vendo a banalidade com que se trata o amor hoje em dia – tem gente que nem ‘Bom dia’ diz, mas não vê problema nenhum em sair distribuindo vários ‘te amo’ por aí – é mais que possível dizer. O difícil é ser verdade.
Não pense que gosto de criticar a vida dos outros sem antes consertar a minha. Já senti paixão muito forte, com direito às frescuras cinematográficas hollywoodianas (ainda acho que eles são os principais responsáveis por sairmos confundindo qualquer paixonitezinha com amor): olhar profundo que parece, e só parece, decifrar a nossa alma; coração acelerado, pernas vacilantes e blá blá blá. Forte e mais duradoura que qualquer “gostandinho” já experimentado, quase dois anos. Seu tempo de duração, o mesmo fator que me fazia confundi-la com amor, foi o que me esclareceu a dúvida depois de terminada a paixão: porque, se fosse amor, não teria terminado (1Coríntios 13:8a). E essa não é a única descrição bíblica de amor, 1João 4:8b diz que Deus é amor. Se Deus é eterno e o próprio Deus é amor, como pode haver contradição entre essas duas palavras, sendo o amor passageiro? Como eu posso amar milhares de pessoas numa vida só? Repare que nós mesmos nos contradizemos, porque ao mesmo tempo em que dizemos amar fazemos cara de nojo quando vemos casais extra-melosos falando “te amo pra sempre” (mesmo que esse pra sempre dure menos que duas semanas).
E tem mais: “Eu te amava, mas você me magoou e por isso hoje eu amo o Fulaninho” Como, se o amor não guarda rancor? (falo por base na NVI, que em vez de terminar o versículo 5 falando “não suspeita mal”, diz “não guarda rancor”). “Eu falei primeiro que a amo porque, sabe como é, senão ela também não diria que me ama” (isso quase ninguém diz, mas bem sei que muita gente pensa) Como, se o amor verdadeiro não busca seus próprios interesses? “Eu sabia que isso lhe magoaria, mas lhe amo!” Como, se o amor é bondoso e não maltrata? (entenda que para este caso há exceções, visto que homens e mulheres são diferentes e o que não significa nada para um é pior que um chute no estômago para o outro. O que diferencia essas exceções é justamente não saber, não ter a intenção de magoar). “Porque a minha amada é muito melhor, mais distinta, mais bonita e inteligente que o resto das meras mortais. Ela é importada, modelo exclusivo!” Meu filho, você está falando uma mulher ou de um carro? Porque mulher nenhuma gosta de ser exibida como troféu. E eu estou falando de mulher, não de garota. E o amor não se vangloria, não se ensoberbece…
Amar não é um mar de rosas. O amor é maduro, não é tão inconsequente e divertido como a paixão. Porque na paixão a gente só pega o lado positivo da coisa, o “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” fica de lado. A paixão deve ser maravilhosa quando acompanhada do amor, mas sendo o amor maior que a fé e a esperança, as únicas coisas que permanecem (1Coríntios 13:13), em sua essência é maior e permanece mesmo quando a paixão acabar.
E quando vejo todas essas características, mais as outras que não descrevi, não encaro o amor como um desconhecido chato, banal e desinteressante, mas sim como um desconhecido ansiado e desejado cujo não sei se já estou pronta para receber.
Geórgia B. Moreira







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